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Dia da Mulher, porque não (?)

  • 6 de mar. de 2017
  • 4 min de leitura

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Começo por dizer o inusitado apesar da frase que dá título a este texto: eu não celebro o dia da mulher.

Eu não festejo o que não devia ser necessário de relembrar – os direitos inerentes a qualquer cidadã, a igualdade de género. Contudo, pauto por demonstrar nas minhas ações e atitudes diárias esses valores.

No final do século XIX este dia foi criado nas lutas femininas em prol de uma progressão das condições de vida, trabalho e de direito de voto – Hoje, e isto por Portugal: temos o voto, uma parte da vida, do trabalho, mas ainda nos falta a do respeito.


A discriminação de género não é mito, assim como não o é existir e fazer-se sentir a misoginia nas suas mais diversas externalizações: exclusão social, discriminação sexual, hostilidade, depreciação, violência, patriarcado, androcentrismo e objetificação sexual – esta última que infelizmente ainda demarca muitas vezes numa das minhas áreas de formação e trabalho, o Marketing em particular na publicidade.

Querem números? Eu dou-vos:


No inquérito realizado pela GFK e pelo Social Data Lab onde se entrevistaram 1004 pessoas (homens e mulheres dos 18 aos 64 anos) a fim de traçar o perfil do “Portugal que temos e o que imaginamos” este mostra-se muito “pequenino” em ideias de igualdade e papéis de género.


Se 72% dos homens acham a mulher a pessoa mais competente para lavar e cuidar da roupa e

apenas 2% deles afirmam ter melhor desempenho nessas tarefas – questiono-me se me torno menos mulher por achar não ter a melhor competência para tratar da roupa?


Contudo esta visão não vem só do lado deles: as próprias mulheres afirmaram serem melhores nestas tarefas (83%) – logo não nos podemos precipitar em conclusões quando lemos apenas um lado do género. Afinal a discriminação de género só existe se esse se sentir segregado.


Em termos de estratos sociodemográficos, se já estavam para empertigarem-se para contrapor, pois bem…o mesmo estudo confirma que estas tarefas são vistas como mais adequadas para as mulheres em todos eles - do mais ao menos jovem de Norte a Sul deste país.


Já no que toca à cozinha, 57% das casas acreditam que deve ser a mulher a cozinheira de serviço (e o homem 5%) – devo opinar que dentro de casa cada agregado sabe o que melhor se enquadra para si… mas peço que não reduzam a tarefa ao género somente porque ficou determinado à nascença, mas sim pela qualidade dos cozinhados.


Nas divisões domésticas os arranjos e a bricolage dizem 80% ser habilidade de homem e apenas 6% dá essa “abébia” às mulheres. Aposto que se fosse colocada uma questão sobre linguagem popular 90% diria que mulher de respeito não se pode dar à pobreza de usar tal gíria mesmo quando bate com o mindinho no móvel. Mas isso são já são outras trindades.


Em 2015 (Pordata) 88% dos agregados de adultos a viver sozinhos com crianças, o adulto é uma mulher. No estudo da Social Data Lab, em termos de divórcios 42% afirma a mulher como detentora da custódia dos menores face a uns 4% de confiança dados ao homem – quer isto mostrar a dificuldade de se atribuir um papel de confiança na construção de um lar e educação positivo ao homem? Se assim for, devo então lutar por um “dia dos homens” mesmo que alegórico no que diz respeito a este ponto.


O mesmo estudo destaca algo verdadeiramente interessante: os “próprios homens acharem que as mulheres são mais competentes do que eles para criar e educar os filhos”. Afinal a discriminação está mesmo em todo o lado. Tenham mais confiança em vocês, vá.


Contudo as questões de desigualdade não se reduzem aos lares dos portugueses, mesmo no mundo do emprego muitas mulheres continuam a auferir menos do que os homens, pese embora que sejam por vezes mais qualificadas.


A dificuldade das mulheres atingirem posições de topo em organizações é muita vez enunciada (das 46 empresas cotadas em bolsa apenas 12,41% tem mulheres nas suas administrações).


No que consta no mundo da política é facilmente verificável que este é predominantemente masculino – em 2015 apenas 17% de todos os ministérios do mundo eram liderados por mulheres e em 37 países o sexo feminino totalizava menos de 10% dos parlamentares (União Interparlamentar e ONU Mulheres, 2015).


E neste contexto, se concordo com a lei da paridade? Bom, digamos que para obter igualdade de representação por vezes os caminhos não são os mais consensuais, mas esperemos que dentro da paridade existam sempre as componentes da meritocracia e da competência como seletores naturais.


Tudo o que vos referi até a este ponto é para na verdade constatarmos que dentro ou fora do nosso país ocidental precisamos de descruzar mentalidades para que: 1) a desigualdade de género não se perpetue; e 2) se consiga substituir a velha imagem estereotipada de papéis de género que ainda paira.


E digo-vos, a de mentalidades é a mais difícil das tarefas em termos de mudança, pois não basta informar as novas gerações, há que mexer nas várias camadas societárias.


Termino então não vos deixando mais na curiosidade:


SIM, eu já me senti objetificada e violentada em espaços públicos com piropos e ações bem mais impróprias por pessoas obscenas em muitos momentos da minha vida, mesmo enquanto menor.


NÃO, eu não estava a “pedi-las” até porque ninguém as pede - independentemente do dito decoro com que se veste ou faz a sua vida particular.


SIM, eu já assisti a situações de paternalismo bacoco e menosprezo da mulher pelo simples facto de o ser.


SIM, eu tento mudar mentalidades…e tu?



post scriptum: sim, claro que tentei escrever com linguagem inclusiva…mas será isso também uma forma de descriminação ao se tentar fugir dela, hm? …acho que esta pode ficar para outra das minhas conversas por escrito.



 
 
 

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