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Neste 8 de Março, Igualdade

  • 8 de mar. de 2017
  • 3 min de leitura

Há manifestas diferenças entre homens e mulheres. Um estudo exploratório e recente de Stanford revelou que as mulheres e os homens podem ter diferenças na actividade cerebral quando executam uma tarefa em parceria, ou seja, não há um género melhor que o outro na cooperação, mas cooperam de forma diferente. Para além das que a ciência vai explorando, há as mais óbvias: os orgãos reprodutores e as hormonas.


A minha forma de ver o feminismo é coerente com essas diferenças. Se somos diferentes, mas isso não nos impede de alcançar os mesmos objectivos, porque não exploramos nós as nossas diferenças e formas diferentes de ver o Mundo e nos aceitamos como seres humanos, igualmente capazes de grandes conquistas? Porque temos que nos interrogar a cada passo que damos, como sociedade, se há igualdade de género? Não deveríamos nós procurar a igualdade de todos os seres humanos, independentemente das suas características particulares (passo o pleonasmo)?



No entanto, questões de elevada complexidade desfocam-nos, individualmente e como um todo, do que deveria ser o objectivo último: a igualdade plena de direitos e deveres, legais e cívicos, de todos os cidadãos de um território soberano e laico.


Aquando das eleições norte americanas nos finais de 2016, grupos de feministas insurgiram-se a favor de Hillary Clinton, com o objectivo de que esta fosse a primeira mulher norte americana a ser Presidente do seu país. Não deveria a Presidência de um povo ser uma escolha dependente da competência dos candidatos? Chegamos então ao extremo oposto: dizemos aos homens que estes chegam a determinados cargos apenas e só porque são homens, mas votamos numa candidata apenas e só porque esta é mulher.


Mas não nos ficamos por aqui. Em Portugal, não foi há muito tempo que um partido político de média dimensão apelou à utilização de ambos os géneros nas comunicações oficiais, como por exemplo “todos e todas”,que passou utilizado pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República portugueses. Na nossa Língua, o uso do masculino no plural representa-nos a todos e a todas. Porque precisamos nós de tal destaque?


Luto ao lado de todas as feministas que têm como bandeira a igualdade de oportunidades e de acesso à Educação e ao mercado de trabalho entre todos os cidadãos, e não apenas para as mulheres, e acredito que ainda há situações de profunda assimetria e ignorância no que toca à igualdade de género em Portugal. No resto do Mundo, a história é outra. Há aqueles com histórias felizes e há os outros, paupérrimos por norma, em que a história nada se assemelha à nossa, de tão violenta e feroz.


Ainda assim, não vejo grande utilidade no Dia da Mulher. As situações de desigualdade de género com que nos deparamos em Portugal não são, na minha opinião, das que se combatem com a comemoração de uma data especial, cada vez mais comercial e consumista. São das que se combatem com educação, leis e criação de oportunidades. A data surgiu numa altura em que as mulheres não podiam votar e reclamavam esse direito. Hoje deparamo-nos com uma taxa de abstenção de mais de 40% em eleições legislativas e presidenciais, em Portugal - deixou de ser um problema das mulheres, é um problema de todos.


As controversas declarações do eurodeputado polaco, Janusz Korwin-Mikke, sobre as mulheres, no Parlamento Europeu não mudaram a minha opinião. Um indivíduo, seja ele homem ou mulher, que, numa posição de poder de um organismo que se diz defensor da igualdade entre cidadãos, afirma que as mulheres são menos inteligentes que os homens, é uma situação penosa para todos e também independente do género. Não é preciso ser-se mulher para ficar surpreendido com as declarações deste eurodeputado. Mais uma vez: é um problema de todos. Felizmente, nesse sentido, cada vez mais homens se associam à causa dita “feminista”. Mas parece continuar a não ser suficiente. As mulheres ainda ganham menos que os homens; ainda se encontram em situação de dependência do pai ou marido; são submetidas a tortura; são tratadas como animais, em certos países. Independentemente do quanto nos unimos e do quanto trabalhamos, ainda existem preconceitos dignos do século XIX, mesmo por parte dos que tiveram a melhor educação, no sentido académico, e que têm melhor qualidade de vida.



Não, o Dia da Mulher não me fascina. Dispenso as felicitações porque nasci com uma vagina, as flores e os chocolates. Mas que sirva para dizer que ainda há muito caminho por trilhar e, essencialmente, que é nas acções do dia-a-dia, com o boicote aos preconceitos, próprios e alheios, que desbravamos esse caminho.


*O autor não escreve de acordo com o Acordo Ortográfico


 
 
 

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