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Ninguém nasce mulher

  • 9 de mar. de 2017
  • 3 min de leitura

Cresci alheada de que ser mulher poderia de alguma forma condicionar o meu futuro, ou as oportunidades que me seriam dadas. Filha única, de pais que trabalhavam por turnos, fui criada em casa da minha avó, onde viviam também as minhas duas tias. Isolada numa aldeia envelhecida, predominantemente habitada por viúvas, cresci entre mulheres fortes, alheia de que homens e mulheres poderiam de algum modo ter diferentes papéis na sociedade. Afinal, na casa da minha avó as mulheres cozinhavam, mas também cavavam a terra, coziam e contruíam galinheiros, usavam vestidos e maquilhavam-se com a mesma facilidade que carregavam sacos de ração para os animais. Eram as três diferentes, mas todas fortes e independentes.


Fui incentivada a ler e a subir às árvores, a pensar com a minha cabeça e nunca aceitar nada como verdade absoluta. Quando aos cinco anos decidi que queria cortar o cabelo comprido e deixá-lo rente à cabeça, ninguém me impediu. Sentia-me de tal modo igual em tudo, que brincava com bonecas em casa, mas jogava à bola com os rapazes na escola e quando soube que íamos representar o Pedro e o Lobo decidi que queria ser o Pedro.

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Nesta altura do ano, quando vejo partilhada a frase de Simone de Beauvoir, lembro-me da minha infância e sei que é verdade, o conceito do que é ser mulher, é construído por nós. Se ligarmos a televisão, facilmente percebemos que, no nosso país, as mulheres e os homens ocupam diferentes papéis. Inadvertidamente e, muitas vezes, sem notarmos consumimos os conteúdos que perpetuam as desigualdades.

Nos canais generalistas, RTP, SIC e TVI todos os directores de informação são homens. Vemos as mulheres repórteres, as mulheres pivots, sabemos que a classe jornalística é maioritariamente composta pelo género feminino e, no entanto, a quando do 4º Congresso dos jornalistas numa mesa redonda com 19 diretores de meios de comunicação, apenas dois eram mulheres. A escassez de mulheres em papéis de liderança na informação e nas artes, cria uma realidade perceptiva que, ainda que para consumo de todos, expõe uma visão masculina das questões. Ao mesmo tempo, cria nas meninas e mulheres, um sentimento de que o seu papel na sociedade não tem a mesma relevância que a do homem.

Muito se discute o sistema de quotas e frequentemente se reflete a fraca participação das mulheres na política, mas raramente vejo críticas à escassez de mulheres como comentadoras políticas e membros de painéis nos diversos programas de análise política. Como se espera que as mulheres julguem ter um papel a desempenhar na política, quando a imagem que constantemente vêem retratada da classe é feita por homens?

O dia internacional da mulher relembra-nos os números, revela as histórias, mas o feminismo faz-se todos os dias. A realidade de todos, começa com a conduta de cada um. Nesse sentido, o mais importante é tomar consciência de como as nossas acções influenciam a perpetuação de atitudes misóginas. Nós mulheres, temos de deixar de considerar que alguns comportamentos são dignos dos homens, mas indignos das mulheres. Deixar de ter vergonha de denunciar os momentos de abuso, moral ou físico. Temos de falar, falar alto, se preciso for, para que as nossas histórias, visões e opiniões sejam ouvidas. Por nós, mas também por todos - porque ser feminista também é defender os direitos e liberdades dos homens - temos de saber, de acreditar, que vale a pena ser mulher.


 
 
 

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