top of page

E ainda sobre o dia da mulher...

  • 10 de mar. de 2017
  • 4 min de leitura

Vivemos num estado democrático, mas temos a perfeita noção de que ele não é o estado perfeito. É o melhor que temos, que nos permite ter uma grande abertura nos direitos sociais. As conquistas da mulher, seja de que nacionalidade for e por mais pequena que pareça ser, fazem parte desse leque de direitos sociais adquiridos, a muito custo.

E ainda são poucas.



Se a democracia não é perfeita hoje, tão pouco o era no seu nascimento. A democracia ateniense abrangia apenas o estatuto de cidadão, e só isso, já excluía as mulheres de qualquer participação política. Mas ia além disso: a mulher era, tanto na Grécia Antiga como na Idade Média e em todas as épocas, propriedade do homem. O marido, o pai, o tio, o dono. O seu papel seria o de parideira e cuidadora, sem direitos assistidos e com liberdade alguma. Esse estatuto ainda é o que verificamos em países menos desenvolvidos.

Por isso, falo por Portugal, conseguimos conquistar o direito ao casamento por escolha e iniciativa própria; a liberdade de ser mãe, mulher de família, sem que isso implique ser fada do lar; aliás, a simples opção de escolha de ser ou não ser mãe, através da Interrupção Voluntária da Gravidez; o planeamento do percurso académico em qualquer área, independentemente do sexo; o de ter uma sexualidade assumida e saudável; entre outros. Claro que os grupos mais conservadoras da nossa sociedade repudiam muitos destes direitos. Ainda temos uma pressão desses mesmos grupos sobre as conquistas já alcançadas. E é claro que ainda temos vários passos a dar.

Mas é bom pensar: na juventude da minha mãe, para viajar, tinha que ser solicitada uma autorização ao seu marido. Se se divorciasse, seria excluída da sociedade, incluídos os filhos. Se abortasse (de forma clandestina, mas podemos mesmo falar dos abortos espontâneos e involuntários) o tratamento hospitalar seria discriminatório e repugnante. Hoje, eu sei, enquanto cidadã portuguesa, que poderei contar histórias mais agradáveis às próximas gerações.


Repito, sobre o estado democrático: é o melhor que temos. Mas não é o melhor que poderíamos ter.

Falou-se durante esta semana dos passos dados, e dos que nos faltam dar. A mulher portuguesa trabalha, estuda, mas ainda não tem a mesma igualdade de oportunidades na carreira do que o homem português. A nível da contratação, ainda existe a discriminação entre género. A sociedade, principalmente a um nível mais rural, ainda é conservadora quanto ao papel da mulher na família. Quanto ao divórcio, mantemos a lei do Estado Novo, que quanto ao recalcamento pós divórcio, os homens esperam 6 meses (180 dias) e as mulheres, 10 meses (300 dias). A violência doméstica ainda é uma realidade para muitas mulheres. E em termos de direitos à maternidade, coisas simples como amamentar em público ainda são, por vezes, criticadas! A sociedade portuguesa precisa de continuar a abrir os olhos. Não existe um movimento feminista contra os homens, mas sim um movimento feminista a favor da igualdade entre os dois géneros.


E isso leva-nos ao facto de que há coisas que têm que ser faladas. Pertencer ao movimento feminista, é querer falar dessas coisas, e falar independentemente do custo.


Sejamos cidadãos e cidadãs do mundo como um todo e vejamos além do que está apenas à nossa frente. O drama do casamento precoce e contra a vontade, é uma realidade que não podemos ignorar e parece faltar uma enorme força a nível internacional para que seja verdadeiramente punido (sobre o assunto, ler aqui).

Outro tema a ser falado, exposto também como atentado à dignidade humana, que felizmente não faz parte do quotidiano da mulher do ocidente: a mutilação sexual, um ato bárbaro e medieval que pretende impedir que as mulheres consigam obter prazer através do acto sexual (a ler sobre isso, aqui).

Mas não me fico por aqui: a cultura do estrupo (um excelente artigo a reler, escrito por uma feminista brasileira, aqui). O estrupo é crime. A sociedade não pode perseguir as vitimas desse crime, com desculpas como a roupa da vítima, o estado da vítima, entre outros. A sociedade tem que perseguir quem pratica este crime! No Brasil, uma jovem foi violada por 30 homens. Não, não existe qualquer desculpa para isso! (a ler sobre a polémica, aqui). Nos Estados Unidos, uma jovem foi violada por um estudante de Stanford. Lembro-me que a polémica disparou, quando nas notícias sobre o caso, os jornalistas faziam questão de mencionar os bons resultados do violador. O caso foi a tribunal. Sentença miserável, de apenas seis meses! Um pai a defender o filho, com o argumento que era uma pena alta para 20 minutos de ação! Podem ler a carta da vítima, aqui, e a perspectiva do pai sobre a forma de carta, a ser entregue ao juiz, sobre sentença do filho, aqui.


Mas em conclusão, aquilo que me leva até este testemunho, é termos celebrado esta semana o dia internacional da mulher. E não podia deixar de referir que, para mim, é algo contorverso: trata-se de um dia específico para celebrar o sexo feminino, por vezes uma estratégia de marketing para aumentar as vendas de serviços ou produtos específicos do mercado "cor-de-rosa".

Escolho, todos os anos, relembrar neste dia a luta que se deu a 8, a 9, a 20 de março, em abril, maio, junho, por tantas e por tantos, que souberam largar o comodismo característico do ser humano e dar grandes passos em direção a um mundo justo. Lembro-me disso quando vou às urnas, e penso nas sufragistas que deram o rosto para que eu tivesse direito a exercer a minha opinião política, e lembro me que o sufrágio feminino ainda não é uma realidade em alguns países. Lembro-me desses. E tenho que me lembrar da oposição aos nossos ideais,

A melhor forma de celebrar, de agradecer tudo o que foi feito, é relembrar esses milhares de rostos que deram o seu contributo, e acrescentar o nosso também.


 
 
 

Comentários


  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon
bottom of page